O solar de OZ
Larissa Marques
a Fransérgio Araújo
desaverbar
meu coração é um posso sem fundoé um morto que anda pelo mundoprocurando hecatombes e caosele, pobre, capta o que meus olhos sonhama realidade dentro de outras coisasque esqueço sempre o nome
meu coração é um poema vazioé intento desgovernadoprocurando reis e coroasele, rico, absorve o que meus dedos tocama realidade dentro de um sentidoque esqueço sempre o nome
meu coração é um subjetivoé um objeto desadjetivadoprocurando signos e cerneele, único, sente o que outros não cantama realidade dentro de mimque esqueço sempre o nome
O ciclone
veio cinza, tirou toda a letargia e sossego do lugar. não se engane, Dorothy, não vai passar...
preâmbulo
posso garantir que o caos existe
ele está alojado em minhas entranhas
desde que sei de mim
e não vai sair
ele faz par igual à melancolia
essa vem desde que sinto
disseram que é vazio
e eles não sabem da palavra
sou a casa do desprezo
das falhas inomináveis
do que deixo passar
pela covardia de encarar
dito isso, enfim,
posso seguir os passos de Dorothy
esperar a estrada amarela
o ilusório e eterno caminho para OZ
avesso retrato
há quem me encontre
em grafites na Augusta
esperando por olhares
desapercebidos
há não quem espere
nada além de pinturas
turvas pela fuligem
tijolos tingidos
e entre flores negras
choro a angústia do meio
ganhando olhares
esquecidos
espirais recorrentes
e se eu decidir ir sem você
e deixar meu amor
me matar de novo
e de novo
e mais uma vez
canções de amor perdido
em espirais sem fim
em refrões batidos
matam-me de novo
e confundem minha cabeça
precisou me deixar de fora
antes sabia me fazer sentir bem
devolvia sorrisos arrancados
precisou me deixar de fora
agora para me ensinar
que sorrir não tem sentido
se o que quero mesmo é chorar
e se eu decidir ir sem você
e deixar meu amor viver
vou me matar de novo
e de novo
e mais uma vez...
ensaio azul
não posso fazer chorar
pois não me reestabeleço
na dor que causo
mas permita que eu sinta
esse amor
posso confundir o negro
com o escuro azul
esqueci de amar
nunca soube
e por vezes minto
esse amor
posso deitar em seu colo
como em qualquer outro
e jurar ser feliz
e ser real
mas tudo é azul
finais felizes não são feitos
pra gente como nós
mas hoje, por hoje posso pedir
faça me tão sua
que esqueça outras coisas
e me sinta inteira
só por hoje
atemporal
os segundos suspensossoam horas infindase passou pelas portasestreitas que sustentammeu átriocomo sair ilesade seus olhoscomo guardar a ânsiados cinco minutosse eles folgam horas?
distância
entre um soluço abafado
e o som cego
há um suspiro que aperta o peito
já me poupo a fala
pouco me dou ao riso
é uma pena não existir chão
entre palavras que sinto
e aquelas que falo.
do que voa
é mito que tem asas e eleva
releva sinas opressoras
e faz respirar o ar
da insana retórica
risada eufórica sem afeto
em dia de luto
é a anágua à mostra
da professora
bíblico
descrente de deusesnão me causa ascolíngua caninalambedora de feridaa ferina vazia, simessa que finge-se cristãe roga-me pragasfeito pagãeu, a atéia, creioem parábolas como ade Lázaro, o leprosoque almejava migalhasde pãese suas chagas eram lambidaspor cães.
Cabíria
trago a inocência aquie sua mão ainda paira sob meus olhosque já não estãoum grande querer jaze seriam contratosquantos seriam anéis e promessas trocadasprovas de fidelidade?
proibido
o vislumbre do não saber
do ignorar
não entender
à mercê dos enganadores
charlatão, charlatão
se tem a resposta para tudo
diz apenas quem sou eu
quem sou eu?
ensaio vermelho
canção tingida
encarnada boca rija
chicote ímpio
das esquerdas, de paixões
devassidões e taras
conjugar-te rubro
flameja-me escarlate.
estrada amarela
tantos desistem ou se perdemnessa fuga alucinadasós e vazios quase ignoramesse cenário cinza e ocrepermeado de vergonha verdee de animas reais ou nãoque deslumbram-se com o bordão:“não há lugar melhor que nossa casa”arritmias pedemmais que um cigarrouma carreiraou uma dose intravenosade colapso nervosoalmejam a overdose do medoe na escuridão da toca do coelhoecoam vozes febris em alucinação:“não há lugar melhor que nossa casa”os pés cheios de bolhastocam-se sufocadosdentro de calçados vermelhospisam em compassos curtosna ânsia de voltar à inocência perdidos na cidade de concreto e póentre ascensão e queda sobre tijolosda estrada amarela, repetem a canção:“não há lugar melhor que nossa casa”perdi meu lar e meu sapato de cristalnão confio mais nos homens de lata,nos covardes, nem nos feitos de palhasou real, mas represento em mim Alice, Cinderela e Dorothypintadas numa pequena aquarelaem tons entre o azul e o carmime com elas sigo em fuga e digo:“qualquer lugar, menos em minha casa”
O espantalho
qual amor que sempre se engana e o medo que toma conta de tudo, ele se escondia sobre a roupa de palha, indefeso e preso ao chão
artificial
já não suporto essa natureza frágil
que me inspira amores eunucos
e perfumes presos a lendas
tentei por anos retirar a bonequinha
loura e perfeita que me impuseram
velei e enterrei todas em meu quintal
e de certa forma elas voltam mortas
para atacar essas pequenas verdades
quem dera a beleza não valesse nada
tentei ser Monalisa de sorriso mestiço
sem adornos nos olhos, sem vaidades
seguem-me peitos sal e risos postiços.
atento-me
pois vem tirar-me calos
no calor de nossa alcunha
dos meus amarelos calendários
borrados e falhos de feriados
tão iguais
pois vem tirar-me fôlego
no arregalo que impunha
dos meus amarelos dias
reféns vitimados desses ais
não mais
pois vem tirar-me solfejos
no regaço sob as unhas
dos meus minutos visionários
loucos e raros ancestrais
nunca mais
corrupta
aceita interpretações
acata mitos
desbrava linhas
subverte as certezas
delibera intenções
mal obedece ritos
ela não é minha
e traz suas vilezas.
a vida é só isso
respire e sinta seu peito inflar
talvez possa voar
e se não puder nem pense
em voltar para casa
corra o mais rápido que puder
talvez possa voar
para longe disso
para longe dos corvos
para longe de tudo
que faz sofrer
e se não puder
esqueça-se e olhe o céu
não para o horizonte
para o céu
O homem de lata
desfila a solidão, a ferrugem e o desespero. onde estão os homens de carne, osso e coração?
sentinela
olhos assombrados em vigia
não sabem mais o que esperar
que tudo é ataque e guerra
invadiram a cidade
sem apreço ou sensibilidade
fita um horizonte em chama
nada está no lugar
e o caos instalado emana
não espera nada mais que armas
segura a batalha entre os braços
silencia o que é seu e cala vozes
os muros derrubados, terras tomadas
vicinais
as veias do tráfego estão entupidas
os sinais todos vermelhos
avisam que há impedimentos
é um bom lugar
mas não para viver
as artérias da cidade reluzem azuis
num início de pôr-do-sol
as luzes estão suspensas
e os segundos já não correm
o trânsito está parado
os pulmões são dióxido de carbono
e garoa fina, inodora
a vida escorre pelos bueiros
ao som de Chico Buarque
buzinas e motores roncando

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